Revolução Francesa- Primeira Fase

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A Primeira Fase da Revolução Francesa (1789–1792)

Da queda da Bastilha ao fim da monarquia constitucional

INTRODUÇÃO

No artigo anterior, vimos como a desigualdade entre os três Estados, a crise financeira da monarquia, a alta do preço do pão e a circulação das ideias iluministas levaram a França a uma situação de forte tensão às vésperas de 1789.

Agora vamos acompanhar o que aconteceu quando essas tensões explodiram. Entre 1789 e 1792, a França deixou de ser uma monarquia absolutista, aboliu os privilégios tradicionais, proclamou direitos para os cidadãos e tentou construir uma monarquia constitucional, na qual o rei continuaria existindo, mas com poderes limitados por uma Constituição.


Essa tentativa, porém, enfrentou resistências internas, a desconfiança em relação ao rei e uma guerra contra outras monarquias europeias. Em 1792, a monarquia chegaria ao fim.

1. DOS ESTADOS GERAIS À ASSEMBLEIA NACIONAL

🗳️ O impasse da votação

Os Estados Gerais se reuniram em Versalhes em maio de 1789. Logo surgiu o impasse sobre a forma de votação: o clero e a nobreza queriam manter o voto por Estado, enquanto o Terceiro Estado exigia o voto por cabeça.

Sem acordo, os deputados do Terceiro Estado tomaram uma decisão ousada. Em 17 de junho de 1789, declararam-se Assembleia Nacional, afirmando que representavam a nação francesa. Alguns membros do baixo clero e alguns nobres liberais se juntaram a eles.

✋ O Juramento do Jogo da Péla

Em 20 de junho, ao encontrarem fechada a sala onde se reuniam, os deputados ocuparam um salão usado para o jogo da péla (um antecessor do tênis). Ali juraram não se separar até dar uma Constituição à França.

Pouco depois, a assembleia passou a se chamar Assembleia Nacional Constituinte. Era uma ruptura importante: a ideia de que o poder pertencia à nação, e não apenas ao rei, começava a ganhar forma concreta.

2. A TOMADA DA BASTILHA E A REVOLTA NO CAMPO

🏰 14 de julho de 1789

Enquanto os deputados debatiam em Versalhes, a população de Paris vivia sob o peso da carestia e do medo. A concentração de tropas reais nos arredores da cidade e a demissão do ministro Necker, visto como favorável a reformas, foram interpretadas como sinais de que o rei pretendia dissolver a Assembleia pela força.

Em 14 de julho de 1789, uma multidão atacou a Bastilha, uma fortaleza usada como prisão e depósito de armas e pólvora. Havia poucos presos ali naquele momento, mas a Bastilha era um símbolo do poder arbitrário da monarquia. Sua queda mostrou que o povo de Paris estava disposto a agir diretamente.

🌾 O Grande Medo

Nas semanas seguintes, a agitação se espalhou pelo campo. Boatos de que nobres estariam organizando bandos armados para atacar os camponeses provocaram um clima de pânico conhecido como Grande Medo.

Em várias regiões, camponeses invadiram castelos e queimaram documentos que registravam as obrigações senhoriais que deviam pagar. A revolução deixava de ser apenas um conflito entre deputados e a corte: ela atingia o próprio funcionamento da sociedade rural.

3. O FIM DOS PRIVILÉGIOS E A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS

⚖️ A noite de 4 de agosto

Pressionada pela revolta camponesa, a Assembleia aprovou, na noite de 4 de agosto de 1789, o fim de grande parte dos privilégios do Antigo Regime: a isenção de impostos dos grupos privilegiados, o dízimo e diversos direitos senhoriais.

Na prática, porém, parte desses direitos não foi simplesmente abolida: os camponeses deveriam indenizar os senhores para se libertar de certas obrigações. Essa exigência gerou novas tensões, e a abolição completa só viria anos depois.

📜 A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

Em 26 de agosto de 1789, a Assembleia aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Inspirado nas ideias iluministas, o documento afirmava, entre outros princípios:

  • que os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos;
  • que a soberania reside essencialmente na nação;
  • que a lei deve ser igual para todos;
  • a liberdade de opinião e de expressão;
  • o direito à propriedade, considerado inviolável e sagrado.

❓ Direitos para quem?

A Declaração tinha uma linguagem universal, mas seus limites logo apareceram. As mulheres não obtiveram direitos políticos — em 1791, Olympe de Gouges publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, denunciando essa exclusão. E a escravidão continuava existindo nas colônias francesas, como em São Domingos (atual Haiti), onde uma grande revolta de escravizados começou em 1791.

4. A PARTICIPAÇÃO POPULAR E A REORGANIZAÇÃO DO ESTADO

🍞 A marcha das mulheres a Versalhes

A falta de pão continuava. Em 5 de outubro de 1789, milhares de mulheres de Paris marcharam até Versalhes para exigir alimentos. Acompanhadas pela Guarda Nacional, obrigaram a família real a deixar o palácio e se instalar em Paris, no Palácio das Tulherias.

A partir de então, o rei e a Assembleia passaram a atuar sob a pressão direta da população parisiense.

⛪ A Igreja e as finanças

Para enfrentar a crise financeira, a Assembleia decidiu nacionalizar os bens da Igreja. Essas terras serviram de garantia para a emissão de títulos, os assignats, que mais tarde passaram a circular como papel-moeda e sofreram forte desvalorização.

Em 1790, a Constituição Civil do Clero transformou os padres em funcionários pagos pelo Estado e determinou que fossem eleitos. Os religiosos deveriam jurar fidelidade à Constituição. O papa condenou a medida, e o clero francês se dividiu entre os que aceitaram o juramento e os que o recusaram — os chamados padres refratários.

Essa divisão religiosa afastou da revolução muitos fiéis, especialmente no campo, e criou uma oposição que teria grande peso nos anos seguintes.

5. A FUGA DO REI E A CONSTITUIÇÃO DE 1791

🐎 A fuga de Varennes

Em junho de 1791, Luís XVI e sua família tentaram fugir de Paris em segredo, rumo à fronteira, onde esperavam contar com o apoio de tropas fiéis e de monarquias estrangeiras. Foram reconhecidos e detidos na cidade de Varennes e trazidos de volta a Paris.

A fuga abalou profundamente a confiança no rei. Se ele havia tentado escapar, poderia ser considerado um defensor sincero da nova ordem? Parte da população começou a defender abertamente a república. Em julho de 1791, uma manifestação republicana no Campo de Marte foi reprimida a tiros pela Guarda Nacional.

📘 A primeira Constituição francesa

Mesmo assim, a Assembleia manteve o projeto de monarquia constitucional. Em setembro de 1791, foi promulgada a primeira Constituição da França. Entre suas principais características:

  • a França tornava-se uma monarquia constitucional, com separação entre os poderes;
  • o rei mantinha o poder executivo e um direito de veto temporário sobre as leis;
  • as leis passavam a ser feitas por uma Assembleia Legislativa eleita;
  • o voto era censitário: apenas os homens que pagavam determinado valor em impostos — os "cidadãos ativos" — podiam votar. Os demais, chamados "cidadãos passivos", tinham direitos civis, mas não políticos.

O voto censitário mostra que a nova ordem favorecia sobretudo a burguesia proprietária. A igualdade perante a lei não significava igualdade de participação política. No mesmo ano, a Lei Le Chapelier proibiu as associações de trabalhadores e as greves.

6. A GUERRA E A QUEDA DA MONARQUIA (1792)

🏛️ As divisões na Assembleia Legislativa

A Assembleia Legislativa, eleita em 1791, reunia grupos com projetos diferentes. Alguns deputados queriam preservar a monarquia constitucional; outros, mais radicais, desconfiavam do rei e defendiam aprofundar a revolução. Os debates aconteciam também fora da Assembleia, em clubes políticos como o dos jacobinos.

Foi nesse período que surgiu a ideia de "esquerda" e "direita" na política: os deputados mais favoráveis às mudanças sentavam-se à esquerda do presidente da Assembleia, e os mais conservadores, à direita.

⚔️ A guerra contra a Áustria

As monarquias europeias observavam a revolução com preocupação, e muitos nobres franceses emigrados pediam sua intervenção. Em abril de 1792, a França declarou guerra à Áustria; pouco depois, a Prússia entrou no conflito.

Curiosamente, grupos opostos apoiaram a guerra por motivos diferentes: alguns revolucionários queriam espalhar os ideais da revolução e desmascarar os inimigos internos, enquanto o rei esperava que uma derrota francesa restaurasse seu poder.

🔥 10 de agosto de 1792

As primeiras derrotas militares e o Manifesto de Brunswick, no qual o comandante das tropas inimigas ameaçava Paris caso a família real fosse atacada, aumentaram a suspeita de que o rei estava ao lado dos invasores.

Em 10 de agosto de 1792, os sans-culottes — trabalhadores, artesãos e pequenos comerciantes de Paris — e voluntários vindos de outras regiões atacaram o Palácio das Tulherias. O rei foi suspenso de suas funções e preso com sua família.

Em setembro, as tropas francesas venceram a Batalha de Valmy, e uma nova assembleia, a Convenção Nacional, eleita agora por sufrágio universal masculino, aboliu a monarquia. Em 21 de setembro de 1792, a França tornava-se uma república.

CONCLUSÃO: POR QUE A MONARQUIA CONSTITUCIONAL FRACASSOU?

Em apenas três anos, a França passou por transformações profundas: o fim dos privilégios, a afirmação de direitos civis, a nacionalização dos bens da Igreja e a primeira Constituição de sua história.

O projeto de monarquia constitucional, porém, dependia da cooperação de um rei que não aceitava plenamente a nova ordem. A fuga de Varennes, a divisão religiosa, a pressão popular e a guerra contra as monarquias estrangeiras tornaram esse equilíbrio impossível.

Também ficou evidente que a revolução não atendia igualmente a todos. A burguesia conquistou espaço político, mas os trabalhadores urbanos, os camponeses mais pobres, as mulheres e os escravizados das colônias continuavam excluídos ou insatisfeitos.

Com a proclamação da República, a revolução entrou em uma nova fase, mais radical e marcada por intensos conflitos internos e externos.

PARA REFLETIR

🤔 Questões

  1. Por que a transformação dos Estados Gerais em Assembleia Nacional representou uma ruptura com o Antigo Regime?
  2. Qual era o significado simbólico da tomada da Bastilha?
  3. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão tinha uma linguagem universal. Quais grupos, no entanto, ficaram excluídos desses direitos?
  4. Por que o voto censitário mostra os limites da igualdade defendida pela Constituição de 1791?
  5. De que maneira a fuga de Varennes e a guerra contribuíram para o fim da monarquia?

SÍNTESE CRONOLÓGICA

📅 Linha do tempo

  • Maio de 1789 — reunião dos Estados Gerais em Versalhes.
  • 17 de junho de 1789 — o Terceiro Estado se declara Assembleia Nacional.
  • 20 de junho de 1789 — Juramento do Jogo da Péla.
  • 14 de julho de 1789 — Tomada da Bastilha.
  • Julho–agosto de 1789 — Grande Medo no campo.
  • 4 de agosto de 1789 — abolição dos privilégios.
  • 26 de agosto de 1789 — Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
  • 5–6 de outubro de 1789 — marcha das mulheres a Versalhes.
  • Julho de 1790 — Constituição Civil do Clero.
  • Junho de 1791 — fuga de Varennes.
  • Setembro de 1791 — Constituição de 1791 e monarquia constitucional.
  • Abril de 1792 — início da guerra contra a Áustria.
  • 10 de agosto de 1792 — ataque às Tulherias e suspensão do rei.
  • 21 de setembro de 1792 — abolição da monarquia e proclamação da República.

NO PRÓXIMO ARTIGO

A Convenção Nacional e o período do Terror (1792–1794): jacobinos, girondinos e a radicalização da revolução.

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