Revolução Francesa – Segunda Fase

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A Segunda Fase da Revolução Francesa (1792–1794)

A Convenção Nacional, a República jacobina e o período do Terror

INTRODUÇÃO

No artigo anterior, vimos como a tentativa de construir uma monarquia constitucional fracassou. A desconfiança em relação a Luís XVI, a guerra contra a Áustria e a Prússia e a pressão popular levaram à queda do rei e à proclamação da República, em setembro de 1792.

Começava então a fase mais radical da revolução. Governada pela Convenção Nacional, a França enfrentou ao mesmo tempo uma guerra contra várias potências europeias, revoltas internas e uma disputa feroz entre grupos revolucionários.


Nesse contexto, os jacobinos chegaram ao poder e implantaram um governo de exceção conhecido como Terror. Foi um período de medidas sociais ousadas, mas também de perseguições e milhares de execuções — um dos momentos mais debatidos da história contemporânea.

1. A CONVENÇÃO E SEUS GRUPOS POLÍTICOS

A Convenção Nacional foi eleita por sufrágio universal masculino, ou seja, sem a exigência de renda mínima para votar. Na prática, porém, a participação nas eleições foi baixa. Dentro da assembleia, três grupos se destacavam:

🔵 Girondinos

Muitos de seus líderes vinham da região da Gironda, no sudoeste da França. Representavam principalmente a burguesia comercial das províncias. Defendiam a república, mas temiam a radicalização popular, eram contrários ao controle dos preços pelo Estado e desconfiavam do peso político de Paris.

🔴 Montanheses (jacobinos)

Recebiam esse nome porque se sentavam nas bancadas mais altas da assembleia. Eram ligados ao Clube dos Jacobinos e tinham entre seus líderes Robespierre, Danton e Marat. Buscavam o apoio dos sans-culottes de Paris e estavam dispostos a adotar medidas mais duras para defender a revolução.

⚪ Planície (ou Pântano)

Era o grupo mais numeroso, formado por deputados sem posição fixa. Ora apoiavam os girondinos, ora os montanheses — e, por isso, seu apoio era decisivo nas votações.

É importante lembrar que esses grupos não eram partidos organizados como os atuais. Eram tendências políticas, com fronteiras às vezes pouco nítidas.

2. O JULGAMENTO E A EXECUÇÃO DO REI

⚖️ "Cidadão Luís Capeto"

Depois de deposto, Luís XVI passou a ser chamado de Luís Capeto, referência à dinastia de seus antepassados. A descoberta de documentos secretos que indicavam seus contatos com inimigos da revolução reforçou as acusações de traição.

O rei foi julgado pela própria Convenção. Os girondinos tentaram evitar a pena de morte ou submetê-la a uma consulta popular, mas a maioria dos deputados votou pela execução.

Em 21 de janeiro de 1793, Luís XVI foi guilhotinado em Paris. Meses depois, em outubro, a rainha Maria Antonieta também seria executada.

🌍 A reação das monarquias europeias

A execução do rei chocou as cortes da Europa. Inglaterra, Holanda e Espanha se juntaram à Áustria e à Prússia, formando a Primeira Coligação contra a França revolucionária. A república se via cercada.

3. A CRISE DE 1793 E A QUEDA DOS GIRONDINOS

Em 1793, a república enfrentava perigos em todas as direções:

  • Derrotas militares nas fronteiras, inclusive com a traição do general Dumouriez, que passou para o lado austríaco.
  • A revolta da Vendeia, no oeste do país, onde camponeses católicos se rebelaram contra o recrutamento militar obrigatório e contra a política religiosa da revolução, com apoio de nobres e padres refratários.
  • A carestia: a desvalorização dos assignats e a alta dos preços continuavam a atingir duramente os trabalhadores urbanos.

🔥 2 de junho de 1793

Os sans-culottes culpavam os girondinos pela crise e exigiam medidas contra os especuladores e os inimigos internos. Em 2 de junho de 1793, milhares de parisienses armados cercaram a Convenção e forçaram a prisão de dezenas de deputados girondinos.

Os montanheses assumiram o controle da república. Em reação, várias cidades das províncias — como Lyon, Marselha e Bordeaux — se rebelaram contra o domínio de Paris, nas chamadas revoltas federalistas. Em julho, o líder jacobino Marat foi assassinado por Charlotte Corday, simpatizante dos girondinos.

4. O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO E O TERROR

🏛️ Um governo de exceção

Para enfrentar a guerra e as revoltas, os jacobinos concentraram o poder em órgãos especiais:

  • O Comitê de Salvação Pública, que na prática governava o país. Robespierre tornou-se sua figura mais influente.
  • O Comitê de Segurança Geral, responsável pela polícia e pela vigilância política.
  • O Tribunal Revolucionário, encarregado de julgar os acusados de crimes contra a revolução.

Em agosto de 1793, a Convenção decretou a mobilização geral (levée en masse): todos os franceses deveriam contribuir para a guerra. Os jovens solteiros foram convocados ao exército, que se tornou um dos maiores da Europa.

⚠️ "O Terror na ordem do dia"

Em setembro de 1793, sob pressão dos sans-culottes, a Convenção aprovou a Lei dos Suspeitos, que permitia prender qualquer pessoa considerada inimiga da revolução, inclusive com base em critérios vagos, como comportamento, origem ou relações pessoais.

Começava o período chamado de Terror. Foram executados nobres, padres refratários, girondinos e muitas pessoas comuns — camponeses, artesãos e trabalhadores. Estima-se que cerca de 17 mil pessoas tenham sido condenadas à morte oficialmente, e que dezenas de milhares tenham morrido nas prisões ou na repressão às revoltas, especialmente na Vendeia.

A guilhotina, apresentada como um método de execução mais rápido e igual para todos, tornou-se o grande símbolo desse período. Entre as vítimas estava Olympe de Gouges, autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, executada em novembro de 1793.

5. AS MEDIDAS SOCIAIS E CULTURAIS DA REPÚBLICA JACOBINA

O período jacobino não se resume à repressão. Nesses meses, a Convenção aprovou medidas que buscavam atender às camadas populares e transformar profundamente a sociedade:

  • Lei do Máximo: fixou preços máximos para alimentos e outros produtos básicos, além de limites para os salários.
  • Fim dos direitos senhoriais sem indenização: em julho de 1793, os camponeses ficaram livres das antigas obrigações sem precisar pagar por isso.
  • Constituição de 1793: previa sufrágio universal masculino, direito à assistência pública e até o direito à insurreição. Aprovada por consulta popular, nunca chegou a ser aplicada, pois foi suspensa enquanto durasse a guerra.
  • Abolição da escravidão nas colônias: em fevereiro de 1794, sob o impacto da revolta dos escravizados de São Domingos, a Convenção aboliu a escravidão em todos os territórios franceses.
  • Projetos de ensino público gratuito, embora tenham sido pouco realizados na prática.

📅 Um novo tempo

Os revolucionários quiseram romper também com a cultura do Antigo Regime. Foi criado o calendário revolucionário, que contava os anos a partir da proclamação da República (1792 era o Ano I) e dava aos meses nomes ligados à natureza, como Brumário (mês das brumas) e Termidor (mês do calor).

Houve ainda uma campanha de descristianização, com o fechamento de igrejas e a substituição de cultos católicos por festas cívicas. Robespierre, que considerava o ateísmo perigoso, promoveu em 1794 o Culto do Ser Supremo, uma religião cívica baseada na crença em um ser divino e na imortalidade da alma.

Nem tudo, porém, apontava para a ampliação de direitos: em outubro de 1793, os clubes políticos femininos foram proibidos, afastando as mulheres da vida política organizada.

6. A REVOLUÇÃO DEVORA SEUS FILHOS: A QUEDA DE ROBESPIERRE

🗡️ As disputas entre os próprios jacobinos

Com os girondinos eliminados, os conflitos passaram a ocorrer entre os próprios revolucionários. Em 1794, Robespierre e seus aliados voltaram-se contra dois grupos:

  • Os hebertistas, liderados por Hébert, que defendiam medidas ainda mais radicais e a descristianização. Foram executados em março.
  • Os indulgentes, liderados por Danton, que pediam o fim do Terror. Foram executados em abril.

Em junho de 1794, uma nova lei reduziu ainda mais as garantias dos acusados no Tribunal Revolucionário. O número de execuções em Paris aumentou bruscamente, no período conhecido como Grande Terror.

🌡️ O 9 Termidor

Paradoxalmente, o Terror se intensificou quando a república já não estava mais à beira do colapso. As revoltas internas haviam sido sufocadas e, em junho de 1794, a vitória na Batalha de Fleurus afastou a ameaça estrangeira. Para muitos deputados, as medidas de exceção já não se justificavam — e qualquer um poderia ser o próximo acusado.

Em 27 de julho de 1794 — 9 de Termidor do Ano II, no calendário revolucionário —, uma aliança de deputados de diferentes tendências votou a prisão de Robespierre. No dia seguinte, ele e vários de seus aliados foram guilhotinados.

CONCLUSÃO: COMO COMPREENDER O TERROR?

A segunda fase da Revolução Francesa foi marcada por uma contradição profunda. Em nome da liberdade e da igualdade, a República jacobina aprovou medidas sociais avançadas para sua época, como o fim dos direitos senhoriais sem indenização e a abolição da escravidão. Ao mesmo tempo, suspendeu garantias individuais e perseguiu adversários, inclusive antigos companheiros de revolução.

Os historiadores discutem até hoje como explicar o Terror. Alguns enfatizam as circunstâncias: a guerra externa, as revoltas internas e a crise econômica teriam levado a medidas de emergência. Outros destacam a dinâmica política e ideológica da própria revolução: a ideia de que era preciso eliminar os "inimigos do povo" tendia a se ampliar sem limites, alcançando cada vez mais pessoas.

Muitos estudiosos consideram que os dois fatores se combinaram. O certo é que esse período deixou marcas duradouras: ele inspirou movimentos que viam na revolução um exemplo de transformação social, mas também alimentou a reflexão sobre os riscos de um poder que se coloca acima das leis em nome de uma causa.

Com a queda de Robespierre, a burguesia moderada retomou o controle da Convenção. A revolução entrava em uma nova etapa, marcada pela reação aos jacobinos e pela busca de estabilidade.

PARA REFLETIR

🤔 Questões

  1. Quais eram as principais diferenças entre girondinos e montanheses?
  2. Por que a execução de Luís XVI ampliou a guerra contra a França?
  3. Que fatores contribuíram para a ascensão dos jacobinos ao poder em 1793?
  4. A República jacobina adotou medidas sociais importantes e, ao mesmo tempo, praticou o Terror. Como você explicaria essa contradição?
  5. Por que muitos deputados passaram a apoiar a queda de Robespierre em 1794?

SÍNTESE CRONOLÓGICA

📅 Linha do tempo

  • 21 de setembro de 1792 — a Convenção abole a monarquia; início da República.
  • 21 de janeiro de 1793 — execução de Luís XVI.
  • Início de 1793 — formação da Primeira Coligação contra a França.
  • Março de 1793 — início da revolta da Vendeia; criação do Tribunal Revolucionário.
  • Abril de 1793 — criação do Comitê de Salvação Pública.
  • 2 de junho de 1793 — queda dos girondinos; os montanheses assumem o controle.
  • Julho de 1793 — assassinato de Marat; fim dos direitos senhoriais sem indenização.
  • Agosto de 1793 — mobilização geral (levée en masse).
  • Setembro de 1793 — Lei dos Suspeitos e Lei do Máximo; início do Terror.
  • Outubro–novembro de 1793 — execução de Maria Antonieta, dos girondinos e de Olympe de Gouges; adoção do calendário revolucionário.
  • Fevereiro de 1794 — abolição da escravidão nas colônias francesas.
  • Março–abril de 1794 — execução dos hebertistas e de Danton.
  • Junho de 1794 — Festa do Ser Supremo; Grande Terror; vitória de Fleurus.
  • 27–28 de julho de 1794 — 9 Termidor: prisão e execução de Robespierre.

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A reação termidoriana e o Diretório (1794–1799): da queda de Robespierre ao golpe do 18 Brumário de Napoleão Bonaparte.

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