Revolução Francesa – Terceira Fase

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A Terceira Fase da Revolução Francesa (1794–1799)

A reação termidoriana, o Diretório e o golpe do 18 Brumário

INTRODUÇÃO

No artigo anterior, acompanhamos a fase mais radical da revolução: a República jacobina, o Terror e a queda de Robespierre, em julho de 1794.

Com o fim do governo jacobino, a burguesia moderada retomou o controle da república. Seu objetivo era preservar as conquistas da revolução que a favoreciam — o fim dos privilégios, a igualdade perante a lei e a proteção da propriedade — e, ao mesmo tempo, afastar tanto o radicalismo popular quanto a volta da monarquia.


Esse equilíbrio se mostrou frágil. Pressionado pela crise econômica, pela guerra e por ameaças à esquerda e à direita, o novo governo passou a depender cada vez mais do exército. Ao final desse processo, um general chegaria ao poder: Napoleão Bonaparte.

1. A REAÇÃO TERMIDORIANA

🔄 O desmonte da República jacobina

O período que se seguiu à queda de Robespierre é chamado de reação termidoriana, em referência ao mês de Termidor. Os deputados que assumiram o poder trataram de desfazer as estruturas do governo jacobino:

  • o Tribunal Revolucionário perdeu força e acabou extinto, e muitos presos políticos foram libertados;
  • o Clube dos Jacobinos foi fechado em novembro de 1794;
  • a liberdade de culto foi restabelecida;
  • os girondinos sobreviventes retornaram à Convenção.

⚪ O "Terror Branco"

A reação também teve sua face violenta. Em Paris, grupos de jovens de famílias abastadas, conhecidos como juventude dourada, atacavam jacobinos e sans-culottes nas ruas. No sul do país, antigos jacobinos foram perseguidos e assassinados. Essa onda de vingança ficou conhecida como Terror Branco — o branco era a cor associada à monarquia.

🍞 O fim do controle de preços e a fome

Em dezembro de 1794, a Lei do Máximo foi revogada. Sem o controle dos preços e com os assignats cada vez mais desvalorizados, os alimentos dispararam, e o inverno de 1794–1795 foi marcado pela fome. Em abril e maio de 1795, os sans-culottes invadiram a Convenção exigindo "pão e a Constituição de 1793". As revoltas foram reprimidas pelo exército, e o movimento popular parisiense foi derrotado.

2. A CONSTITUIÇÃO DO ANO III E O DIRETÓRIO

📘 Uma república para os proprietários

Em 1795, a Convenção aprovou uma nova Constituição, conhecida como Constituição do Ano III. Ela buscava evitar tanto a concentração de poder de uma ditadura quanto a pressão das massas populares. Suas principais características eram:

  • o retorno do voto censitário: apenas os cidadãos que pagavam impostos podiam votar, e os cargos mais altos ficavam reservados aos mais ricos;
  • um poder legislativo dividido em duas câmaras: o Conselho dos Quinhentos, que propunha as leis, e o Conselho dos Anciãos, que as aprovava ou rejeitava;
  • um poder executivo exercido por cinco diretores, que davam nome ao novo regime: o Diretório.

A nova Declaração de Direitos que acompanhava a Constituição incluía também uma lista de deveres dos cidadãos, como respeitar as leis e a propriedade. Diferentemente da Constituição de 1793, já não mencionava o direito à insurreição.

💥 O 13 Vendemiário

Em outubro de 1795, os monarquistas tentaram uma insurreição em Paris. A Convenção recorreu ao exército, e a revolta foi esmagada a tiros de canhão por tropas comandadas por um jovem general: Napoleão Bonaparte. Pouco depois, a Convenção encerrou seus trabalhos, e o Diretório começou a governar.

3. UM GOVERNO ENTRE DOIS PERIGOS

O Diretório governou a França entre 1795 e 1799, enfrentando oposição dos dois lados do espectro político.

🔴 À esquerda: a Conspiração dos Iguais

Em 1796, Gracchus Babeuf e seus companheiros planejaram derrubar o governo. Eles defendiam não apenas a igualdade perante a lei, mas também a igualdade real de condições de vida, com o fim da propriedade privada da terra. A conspiração foi descoberta e Babeuf foi executado em 1797. Suas ideias, porém, seriam lembradas mais tarde como precursoras do pensamento socialista.

⚪ À direita: os monarquistas

Nas eleições de 1797, os monarquistas conquistaram muitas cadeiras nos Conselhos. Temendo a volta da monarquia, os diretores recorreram novamente ao exército: no golpe de 18 Frutidor (setembro de 1797), anularam as eleições em diversos departamentos e afastaram os deputados eleitos. No ano seguinte, quando foram os jacobinos que cresceram nas urnas, o governo também anulou parte dos resultados.

💸 Crise econômica e descrédito

Os assignats, praticamente sem valor, foram abandonados em 1796, e o Estado chegou a declarar que não pagaria a maior parte de sua dívida. Ao mesmo tempo, especuladores e fornecedores do exército enriqueciam, e o governo era acusado de corrupção. Ao anular eleições sempre que o resultado não lhe agradava, o Diretório perdia legitimidade e se tornava dependente dos generais.

4. A GUERRA E A ASCENSÃO DE NAPOLEÃO

🇮🇹 A campanha da Itália

Enquanto o governo se desgastava internamente, o exército acumulava vitórias. Entre 1796 e 1797, Napoleão Bonaparte comandou uma campanha vitoriosa na Itália contra os austríacos. O Tratado de Campo Formio (1797) garantiu à França novos territórios e influência sobre o norte da península.

A França passou a criar, nas regiões conquistadas, as chamadas repúblicas irmãs, governos aliados inspirados em seu modelo. As guerras, que antes eram apresentadas como defesa da revolução, tornavam-se também guerras de expansão — e os saques nos territórios ocupados ajudavam a sustentar as finanças francesas.

🐪 A expedição ao Egito

Em 1798, Napoleão partiu para o Egito com o objetivo de atingir os interesses comerciais da Inglaterra no caminho para a Índia. Apesar de vitórias em terra, a frota francesa foi destruída pelos ingleses, comandados por Nelson, e o exército ficou isolado.

A expedição levou também cientistas e estudiosos, que fizeram um amplo levantamento sobre o Egito. Foi nesse contexto que se encontrou a Pedra de Roseta, que mais tarde permitiria decifrar os hieróglifos.

Enquanto isso, formava-se a Segunda Coligação contra a França, e as derrotas voltavam a ameaçar as fronteiras. Em 1799, Napoleão deixou o exército no Egito e voltou à França, onde foi recebido como um herói.

5. O GOLPE DO 18 BRUMÁRIO (1799)

🎖️ A espada a serviço da burguesia

Parte da burguesia desejava um governo mais forte, capaz de garantir a ordem, proteger a propriedade e impedir tanto a volta dos jacobinos quanto a restauração da monarquia. Um dos próprios diretores, Sieyès — o mesmo que em 1789 havia escrito o famoso panfleto O que é o Terceiro Estado? —, planejou um golpe e buscou o apoio de um general prestigiado. A escolha recaiu sobre Napoleão.

Em 9 de novembro de 1799 — 18 de Brumário do Ano VIII —, sob o pretexto de uma conspiração jacobina, os Conselhos foram transferidos para fora de Paris. No dia seguinte, diante da resistência de parte dos deputados, soldados invadiram a sala do Conselho dos Quinhentos e dispersaram os parlamentares.

🏛️ O Consulado

O Diretório foi substituído pelo Consulado, um governo formado por três cônsules. Uma nova Constituição deu ao Primeiro Cônsul, Napoleão Bonaparte, poderes muito amplos. Formalmente, a França continuava sendo uma república. Na prática, o poder estava concentrado nas mãos de um general.

CONCLUSÃO: O QUE A REVOLUÇÃO DEIXOU?

O 18 Brumário costuma ser considerado o fim da Revolução Francesa. Em dez anos, a França passou da monarquia absolutista à monarquia constitucional, à república radical, à república moderada e, por fim, ao governo de um general.

Apesar das idas e vindas, a revolução deixou transformações profundas e duradouras: o fim dos privilégios e das obrigações senhoriais, a igualdade jurídica entre os cidadãos, a ideia de que o poder emana da nação e a afirmação de direitos individuais. A burguesia foi a grande beneficiária desse processo, consolidando seu poder econômico e político.

Ao mesmo tempo, a revolução deixou questões em aberto. A participação política dos mais pobres, os direitos das mulheres e a igualdade social continuaram sendo objeto de lutas ao longo dos séculos XIX e XX.

Seus ideais também atravessaram o Atlântico. Em São Domingos, os escravizados conquistariam a independência do Haiti em 1804. No Brasil, a Conjuração Baiana (1798), formada em grande parte por homens negros e mestiços pobres de Salvador, defendia a igualdade e o fim da escravidão, inspirada em parte nas ideias vindas da França.

Com Napoleão no poder, a França entrava em uma nova etapa, que consolidaria muitas conquistas da revolução e, ao mesmo tempo, abandonaria outras.

PARA REFLETIR

🤔 Questões

  1. Quais medidas da reação termidoriana mostram o afastamento em relação ao período jacobino?
  2. Compare a Constituição de 1793 com a Constituição do Ano III. Quais grupos sociais cada uma favorecia?
  3. Por que o Diretório se tornou cada vez mais dependente do exército?
  4. Por que parte da burguesia apoiou o golpe do 18 Brumário?
  5. Quais conquistas da Revolução Francesa permaneceram após 1799? E quais questões continuaram em aberto?

SÍNTESE CRONOLÓGICA

📅 Linha do tempo

  • Julho de 1794 — 9 Termidor: queda de Robespierre; início da reação termidoriana.
  • Novembro de 1794 — fechamento do Clube dos Jacobinos.
  • Dezembro de 1794 — revogação da Lei do Máximo.
  • Abril–maio de 1795 — revoltas populares em Paris, reprimidas pelo exército.
  • Agosto de 1795 — aprovação da Constituição do Ano III.
  • Outubro de 1795 — insurreição monarquista do 13 Vendemiário, reprimida por Napoleão; início do Diretório.
  • 1796–1797 — Conspiração dos Iguais; campanha da Itália.
  • Setembro de 1797 — golpe de 18 Frutidor contra os monarquistas.
  • Outubro de 1797 — Tratado de Campo Formio.
  • 1798 — expedição ao Egito; Conjuração Baiana, no Brasil.
  • 1798–1799 — formação da Segunda Coligação contra a França.
  • 9–10 de novembro de 1799 — golpe do 18 Brumário; início do Consulado.

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A Era Napoleônica (1799–1815): do Consulado ao Império, o Código Civil, o Bloqueio Continental e a vinda da família real portuguesa para o Brasil.

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